O Poder do Acaso

“A gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?”

João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

Viagem à Califórnia (EUA), em out/2013

Mais uma manhã de terça-feira e você está no metrô rumo ao trabalho. E eis que na estação seguinte a pessoa entra no trem e você não consegue desviar o olhar. Ela exerce um poder de atração intenso, mas você tem que desembarcar na estação seguinte e não tem coragem de puxar conversa. Mesmo sabendo que é quase impossível cruzar com aquela pessoa novamente, a cada manhã você guarda essa leve expectativa de vê-la novamente. Os meses passam, a lembrança vai sumindo, quando então num dia qualquer você a vê novamente. Essa oportunidade não é perdida e se inicia um papo. São quase 5 milhões de passageiros no metrô de São Paulo todos os dias, em trens que chegam e vão a cada 2 minutos em média, e ainda assim este encontro se repetiu. Por um acaso.

O mesmo fenômeno da aleatoriedade que propicia encontros inesperados e oportunidades abraçadas também pode significar acidentes fortuitos e problemas de saúde imprevistos.

É o caso da maior parte das pessoas que tem câncer, com mostra ampla pesquisa conduzida por Cristian Tomasetti e Bert Vogelstein da Universidade Johns Hopkins (EUA) e publicada pela revista Science em março de 2017. Foram analisados dados de 17 tipos de tumores em 69 países e a conclusão é de que 66% das ocorrências de câncer são oriundos de erros aleatórios no processo de divisão celular. Jamais poderiam, portanto, ser previstos ou evitados.

Suspeito que muitos que conviveram com a doença não necessariamente se surpreendam com esta informação. Não são raros os casos em que pessoas de hábitos saudáveis, não expostas a fatores de risco e sem histórico familiar são acometidas pela doença. No nosso caso em particular, a Karla tinha uma vida saudável, ativa e sem casos na família, e ainda assim foi diagnosticada com tumor colorretal aos 33 anos.

Como sabemos, câncer é o nome dado a uma série de doenças que tem a mesma origem: crescimento desordenado de um grupo de células do corpo. As células humanas se regeneram o tempo todo e em muitas vezes acontecem erros na cópia do DNA. A maioria desses erros é inofensiva ou eliminada pelo próprio sistema imunológico, mas em alguns casos um gene importante é afetado, e então se desencadeia um processo de crescimento desordenado da célula: o câncer. Essa mutação pode ser causada por três tipos de fatores: ambientais, hereditários e aleatórios. O que os pesquisadores mostram é que o fator “azar” pode ter um peso muito maior do que se imaginava.

A pesquisa mostra que alguns tipos de tumores são mais influenciados por fatores ambientais como os de pulmão (cigarro), esôfago (dieta ruim) e pele (radiação solar), e outros por fatores aleatórios como os de próstata, cérebro e mama, em que o acaso pode ser responsável por até 95% dos casos. Mas mesmo nos primeiros casos, uma boa parcela das pessoas pode desenvolver câncer por conta de erros randômicos no processo natural de divisão celular daquele órgão.

O que podemos fazer então? “Precisamos continuar a encorajar as pessoas a evitar agentes ambientais e estilos de vida que aumentam o risco de desenvolver mutações de câncer. No entanto, muitas pessoas ainda desenvolverão câncer devido a esses erros aleatórios de cópia de DNA”, disse um dos pesquisadores. “Melhores métodos para detectar todos os cânceres previamente, enquanto eles ainda são curáveis, são urgentemente necessários.”

De qualquer forma, temos que aprender a conviver com o fato de que a vida não está sob nosso comando.

O acaso se mistura com nossos planos e o resultado é que não sabemos onde e quando vamos chegar. Isso é tão assustador como real.

E sendo um fato, resta a nós lidarmos com a sensação natural de medo lembrando que é exatamente essa aleatoriedade da vida que lhe confere a sua magia. É dali que vem o sentimento de mágico da descoberta, do mistério sobre o porvir, de esperança por dias melhores, de expectativa por um encontro como o do metrô.  

Para ter risco de ter câncer, basta nascer. Para ter risco de viver, basta estar vivo. Cada dia a mais aqui é uma bênção. Aproveite.

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