Por que eu?

“Por que eu?” Ou apenas “por quê?” São talvez as primeiras perguntas que surgem para quem recebe o diagnóstico de câncer, principalmente quando se é mais jovem. As causas do câncer ainda são na sua imensa maioria um grande mistério. É claro que praticar exercícios com regularidade, ter uma alimentação saudável e atentar para a qualidade de vida diminuem as chances não só de desenvolver câncer, mas de várias outras doenças. Mas em geral não é possível definir uma relação de causa e efeito para essa doença, a não ser a quantidade de anos vividos. Ou seja, quanto mais velho, maior a probabilidade. Daí o espanto, não só da família mas das pessoas em geral, quando se descobre o câncer em um jovem adulto, responsável por apenas 4% dos casos.

Tentar buscar uma causa é inevitável, mas na maioria das vezes infrutífero. Mesmo fatores de risco conhecidos como exposição excessiva à radiação e infecção por HPV ou HIV provavelmente são responsáveis por uma pequena fração dos diagnósticos. No caso da minha esposa Karla, diagnosticada com câncer colorretal aos 33 anos, fica difícil imaginar algo diferente do que um imenso azar. Era uma pessoa de hábitos saudáveis, sem histórico na família, não fumava, e ainda assim algumas células de seu corpo resolveram se reproduzir de forma desordenada e migrar para outras partes do corpo. Diante dessa constatação, nossa tentativa foi de imediatamente focar no prognóstico, no tratamento, na possibilidade de cura.

Isso não elimina de forma alguma os momentos de raiva, de não aceitação, de incredulidade com a situação, mas não há dúvidas de que essa postura orientada para o futuro, e não para as possíveis e indecifráveis causas, nos ajudou muito a encarar o dia a dia com mais serenidade.

Até porque, no limite, uma outra forma de olhar o contexto é se perguntar “por que não eu?” Não somos melhores do que ninguém, e estamos sujeitos aos mesmos acasos que outras pessoas. Além disso, apesar de ser um grupo menos sujeito ao câncer, estima-se que mais de 60 mil pessoas de 20 a 39 anos são diagnosticadas todo ano só nos Estados Unidos segundo a American Cancer Society. Definitivamente não se está sozinho nessa. O que não ameniza o fato de ser uma doença estúpida, gravíssima, com um tratamento em geral bastante pesado e que afeta drasticamente a rotina da família. Mas pelo menos nos dá uma motivação diferente para lidar com a doença e seguir com a vida e com o que ela tem de melhor.

Comecei falando em azar, mas com muito esforço talvez consigamos ver sorte. Depois do diagnóstico, pudemos ainda viver juntos por três anos e meio e acompanhar os primeiros passos da nossa filha, hoje com quatro anos. Muitas outras pessoas com câncer ou outras enfermidades não tiveram a mesma possibilidade. Com todas as dificuldades desse período, pudemos educar, viajar, trabalhar, namorar, celebrar. Mesmo com ausências frequentes, Karla pôde conviver intensamente com a Clarice, a ponto de ela sempre lembrar de situações e aprendizados que teve com a mãe. Nada pode apagar esses 17 anos vividos como casal e os três e meio como pais, nem o câncer. Espero um dia conseguir encontrar algum sentido para algo tão injusto e inacreditável, e de genuinamente mudar a pergunta: de “por que” para “para que”.

Publicado originalmente em 18/02/2016 (site Oncoguia)

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