Jovem Câncer

Muito se referem ao câncer como o mal do século XXI, a grande praga da modernidade ou o imperador de todos os males. De fato, apesar de terem sido encontrados relatos de tumores na Antiguidade, o aumento da expectativa de vida e a proliferação de elementos supostamente cancerígenos na história recente gerou um aumento significativo da incidência de câncer na população. Ainda assim, quando pensamos em pacientes com câncer imaginamos quase sempre pessoas mais velhas. Ou, lamentavelmente, lembramos de casos de crianças que desenvolvem leucemia, um dos tumores infantis mais frequentes. Mas quase nunca pensamos que o câncer também pode afetar jovens adultos.

Karla tinha 33 anos quando foi diagnosticada com câncer. De todas as doenças que ela sabia poder ser alvo naquele momento, nunca pensou que o câncer fosse uma delas.

Nesta faixa etária estamos até certo ponto preparados para lidar com casos de ansiedade, depressão, apendicite, calvície, obesidade, até acidentes, mas jamais para saber que seu corpo está produzindo células de forma desordenada em pelo menos uma parte de seu corpo – o tumor.

É nessa fase da vida que em geral se inicia um relacionamento afetivo mais sério, a constituição de uma família, uma carreira profissional. É quando finalmente se atinge uma maturidade tal que te permite estabelecer as bases sólidas para o desenrolar da vida nas décadas seguintes. E paradoxalmente surge uma doença cuja imagem e complexidade de tratamento te colocam cara a cara com o caráter finito da vida. Talvez pelo choque que seja para a sociedade aceitar essa inversão da ordem natural das coisas, nós acabamos até certo ponto negligenciando a existência de um grupo de pessoas entre 20 e 40 anos de idade com câncer.

“Sou muito jovem para isso” é o mote da Stupid Cancer, uma entidade criada em 2007 nos Estados Unidos voltada exatamente para atender aos anseios específicos de pessoas com câncer nesta faixa etária. O fato é que receber um diagnóstico desse e ter de lidar com toda dificuldade do tratamento para quem estava iniciando a fase adulta é um “saco” mesmo. Em primeiro lugar há uma sensação de que esta fatalidade aconteceu somente com você, o que não é verdade. Se não é tão comum diagnósticos de câncer nesta idade quanto é com pessoas mais velhas, ainda assim estima-se que haja 72 mil novos casos por ano neste grupo.

Em seguida, surge a necessidade de lidar com os desafios específicos dessa idade. Vou ter que parar de trabalhar? Meu parceiro vai suportar? E a minha vida sexual? Como vou bancar o tratamento? Vou poder ter filho?

Felizmente Karla pôde dar à luz meses antes do diagnóstico. Por três anos e meio ela conseguiu, entre cirurgias, internações e tratamentos, ser uma mãe exemplar, continuar cuidando bem da casa e ser a melhor companheira para seu marido. Não sem muitas dificuldades, dúvidas, medo.

É para ajudar nestes anseios até certo ponto exclusivos dessa faixa etária que entidades como a Stupid Cancer trabalham. Seria muito bom que no Brasil pudesse existir também um apoio específico para jovens adultos com câncer. Eu me coloco à disposição.

Karla foi minha mulher por 17 anos longos e inesquecíveis anos, e desse amor veio Clarice, hoje com 4 anos.

Publicado originalmente em 2/09/2015 (site Oncoguia)

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