Aprendizados

A vida nos brinda com possibilidades diárias e infinitas de aprendizado: fatos corriqueiros, encontros ou reencontros, paisagens, conquistas e perdas, bate-papos, leituras. Prestando atenção, os acontecimentos do dia a dia podem ser fontes de autoconhecimento, de despertar, de significado. Mas certamente existem situações tão dramáticas quanto inesperadas que te forçam a repensar o modo como se leva a vida. Uma doença grave, um acidente, uma tragédia, são extremos que provavelmente somos obrigados a lidar em algum momento da nossa história, e daí vem o desafio maior.

O diagnóstico de câncer é um desses acasos que podem ressignificar o próprio propósito de vida. Com muito esforço, tento usar a experiência do período de tratamento da Karla e também daquele posterior à sua partida em prol de algo que possa me confortar e tornar uma pessoa melhor.

Muitos foram os ensinamentos que ela me passou desde que nos conhecemos na faculdade em 1997. E nestes últimos cinco anos, em meio a tanta dor, ela me ofereceu e continua oferecendo muitos ensinamentos.

Com a Karla, aprendi que:

  • é ilusão achar que se tem o controle sobre todas as coisas que acontecem contigo;
  • não é preciso ser religioso para alcançar um alto nível de espiritualidade;
  • ninguém tem o direito de tirar do paciente a esperança de cura;
  • ninguém tem o direito de estender o sofrimento quando ele é maior do que a perspectiva de cura;
  • devemos andar mais devagar, no ritmo da respiração e da natureza;
  • muita coisa pode ser dita só com o olhar;
  • há muito de prazer esquecido num simples gole de água e num abraço;
  • os efeitos colaterais dos medicamentos são tão importantes quanto os efeitos curativos;
  • há muito valor nos trabalhos de fisioterapia e enfermagem;
  • a morte faz parte da vida e portanto não deve ser escondida;
  • é possível encarar a morte com serenidade, nobreza e sabedoria;
  • a vida é dura, mas é sempre possível seguir em frente;
  • postergar já é perder;
  • existe amor verdadeiro.

A meta maior da vida é ser feliz. Como diz o filósofo francês Frédéric Lenoir no seu livro Sobre a Felicidade, “amo demais a vida para não querer qualquer coisa que não ser feliz”. É impossível evitar que aconteçam coisas ruins, ou até mesmo terríveis, no decorrer dela. A sabedoria está na forma como se lida com elas. No fundo, “não são os acontecimentos que contam, mas o modo como cada um os sente”. É nesse exercício diário que busco ir adiante, iluminado pelos anos de convívio, pelos seus ensinamentos e pela nossa linda filha Clarice.

Publicado originalmente em 16/01/2017 (site Oncoguia)

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