
Por ser algo tão inesperado quanto cruel especialmente nesta fase da vida, o diagnóstico de câncer no jovem tem um efeito avassalador. A doença afeta profundamente a rotina, a visão de mundo e a perspectiva de futuro não só do paciente, mas de todos a sua volta. Quando se é um casal em início de vida em família, cheios de energia e sonhos para o futuro, é preciso ter muita coragem, maturidade e amor para seguir adiante. O câncer muda a vida do parceiro também e é importante aceitar e compreender isso.
Minha esposa foi diagnosticada com câncer colorretal aos 33 anos. Nós estávamos casados havia três anos e com uma filha de três meses de existência.
Um choque brutal para a nossa jovem família, que de uma hora para outra passou a ter que lidar com um quarto elemento na nossa vida: o câncer.
O papel do parceiro nesta hora é crucial e muito difícil, porque ele também fica fortemente abalado.
Em maio de 2016 estive na CancerCon em Denver (EUA), um evento espetacular que reuniu 600 pessoas de alguma forma envolvidas com câncer em jovens adultos: pacientes, “sobreviventes” (já passaram pela doença), “cuidadores” (familiar, cônjuge ou amigo) e defensores da causa. Dentre os vários painéis da programação, estive em alguns voltados especificamente para essa questão do casal e do cônjuge. Pude encontrar pessoas que estavam passando pelo que enfrentei e compartilhar os medos e angústias: culpa por achar que não se está fazendo o bastante, dor por não poder aliviar a dor de quem se ama, tristeza por ter um projeto de vida a dois interrompido bruscamente por algo incontrolável. Sentimentos naturais e que precisam ser elaborados para poder continuar dando o apoio necessário ao cônjuge.
Ao mesmo tempo em que o parceiro sofre junto com a esposa, ele sente que tem que manter o ritmo da família avançando. Continuar cuidando da sua própria saúde física e mental e manter a vida profissional ativa são extremamente importantes para poder ser um bom companheiro e dar tudo o que ela precisa. E na medida do possível tratar de fazer o que sempre fizeram: conversar, viajar, sonhar. Porque os sonhos não vão embora; você apenas passa a olhá-los sob outra perspectiva.
Foi comovente também no CancerCon ver a história da Lisa, que se encantou por Ethan, ela saudável e ele já em tratamento contra um linfoma. A doença, a fragilidade física e psicológica, e o medo de se entregar a um relacionamento amoroso não impediu que se construísse uma bela história de amor. Assim como eu e a Karla, eles perceberam que para manter a relação saudável era importante falar abertamente do assunto, colocar na mesa os receios e angústias, não fingir que o câncer não está lá, mas ao mesmo tempo não tornar este o tema prioritário da vida.
O nosso dia a dia era ocupado sim com conversas sobre o tratamento, a escolha do médico, os remédios, os medos, mas também sobre os acontecimentos do mundo, a reunião do condomínio, a programação do fim de semana, a educação da nossa filha. Esse equilíbrio não é algo fácil de se conseguir principalmente quando há dores físicas provocadas pela própria doença ou por efeitos colaterais dos medicamentos, mas deve ser buscado com vigor.
Por mais que o casal consiga levar sua vida adiante, a doença sempre vai estar lá. A sabedoria é conseguir aceitar e encarar a realidade. É uma barra pesadíssima sim, há muitas dores e sofrimentos, mas é a vida. Junto com toda a minha dor e saudade, tenho orgulho de ter tido uma mulher que lidou com a doença de forma digna e serena, apesar dos medos. Porque o medo existe, mas não pode imperar. Afinal, como disse um dos participantes do evento, “viver com medo não é viver”.
Publicado originalmente em 1/08/2016 (site Oncoguia)